Nossa Feira da Troca é uma prática que sempre nos remete a uma reflexão especial a respeito do consumo, dos valores da nossa sociedade e das possibilidades de um olhar crítico.
Ricardo é biólogo, pai da aluna Beatriz e também responsável pelo projeto "Jardinagem:cultura e biodiversidade" no Fundamental 1 e escreve aqui.
Ricardo é biólogo, pai da aluna Beatriz e também responsável pelo projeto "Jardinagem:cultura e biodiversidade" no Fundamental 1 e escreve aqui.
Ricardo Leinig
O primeiro trabalho antropológico onde a troca aparece como central é o de Malinowski. Este trabalho é tido até hoje como exemplo de pesquisa de campo e descrição, sendo sempre citado; no entanto, as generalizações e construções de conceitos do autor (sobre a troca mesmo) é bem pobre.
A partir da obra de Malinowski, juntamente com várias outras etnografias de outros povos, Marcel Mauss escreve o Ensaio Sobre a Dádiva. Este autor, ao abordar o caráter, ao mesmo tempo voluntário e obrigatório do dar / receber / retribuir, coloca a troca como algo universal, e não apenas característico desta ou daquela sociedade. A diferença é que enquanto em umas sociedades a troca é o centro de todas as relações, em outras sociedades – nas quais o mercado ocupa este centro – a troca aparece aqui ou acolá, inclusive misturada aos princípios estruturantes do mercado. Indo adiante nesta interessante análise, Mauss ainda saca de uma explicação dos próprios povos onde identifica a troca e, para entender o que possibilita esta união entre dar / receber / retribuir, chegando à "alma da coisa".
Depois, Lévi-Strauss supera essa explicação da “alma da coisa” e confere definitivamente o caráter de universalidade para as trocas.
Até aqui estamos falando praticamente só de sociedades sem estado, ou sem poder centralizado, que antigamente eram chamadas de primitivas (ou menos civilizadas).
Tanto no livro "A Dádiva Divina" quanto no "Família Fofoca e Honra", temos exemplos de análises atuais da troca em sociedades com estado e poder centralizado.
Como você poderá notar, a troca nestes modos de olhar, são princípios de organização das próprias relações sociais, engendradas por pessoas que, no mais das vezes, não possuem nem a noção consciente de que os grupos se organizam baseados na troca – e isso veio de análises de pesquisadores…
Sendo assim, não tem como fazer uma comparação direta e sem milhares de mediações entre estes contextos e a nossa Feira da Troca, que é um evento conscientemente proposto e com tempo e espaço bem especificados. Mas acho que mesmo assim, ao aprofundarmos as noções sobre a troca como o fenômeno que possibilitou que o próprio homem vivesse em sociedade, temos mais condições de refinar a nossa Feira, no sentido de, pelo menos, minimizar aquele tipo de situação onde pessoas levam qualquer coisa para trocar, sem cuidados mínimos com a qualidade dos objetos.
Ricardo Leinig,
biólogo e professor de Jardinagem
da Palmares