segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os limites na adolescência

Lidia Arantangy, psicoterapeuta de casal e de família, afirma que todas as pessoas precisam de limites ao longo da vida. "Mas na adolescência essa questão fica aguda, porque o poder dos pais sobre os filhos diminui e há uma ampliação da disposição dos jovens em desrespeitar ordens".
Para impor limites, os pais precisam lidar com a própria dificuldade em tolerar a frustração dos filhos. Os pais acreditam que se o jovem fica frustrado é porque eles, pais, cometeram algum erro quando, na verdade, esse sentimento faz parte da bagagem humana. "É impossível ser um adulto completo e normal sem ter vivido a experiência da frustração e, por conseqüência, da tolerância", explica Lídia.
Para diminuir o conflito, os adultos devem explicar o motivo do "não". Mas, mesmo que não consigam convencer a criança, devem manter a ordem. "O não é uma palavra poderosa e forte, que não pode ser banalizada ou usada com impertinência. Mas quando utilizada, é necessário fazê-lo com tranqüilidade e convicção", acredita.
Se os pais tentam impor limites que não têm firmeza para sustentar, dificilmente conseguirão se fazer respeitar, o que também leva à perda do respeito. "Dizer que o filho nunca mais vai pegar o carro, por exemplo, é seguramente uma mentira. Colocar prazos impossíveis não serve como "rédea". Se eles não sabem até onde conseguirão sustentar determinada imposição, é preferível dizer: "você não vai sair de casa até segunda ordem", sugere a psicoterapeuta.
Os limites a que os adolescentes devem ser submetidos são aqueles relacionados à sua sobrevivência e saúde física e mental. Os conflitos geralmente acontecem porque os filhos querem ir além do que os pais recomendam ou desejam.
Lídia diz que o adolescente tem quase a obrigação de desafiar os seus limites, assim como faz parte da geração dos pais e professores tentar segurá-los o mais perto que conseguirem. "Felizmente nenhum dos dois é totalmente bem-sucedido. Se o adolescente fosse tão longe quanto acha que pode morreria antes de passar os genes para a geração seguinte. Se os pais conseguissem segurar os filhos tão perto quanto desejam, a civilização não avançaria. Desse confronto é que o mundo evolui. E a genética também", ironiza.

CAPAZ DE LIDAR COM AS CONSEQUÊNCIAS?

A liberdade vai até o ponto em que o adolescente tem competência para arcar com as consequências. "Se ele não tem carta, pega o carro do pai e dá uma trombada, não tem como arcar com tudo o que vier a reboque: prejuízo, problemas com a polícia, etc. Então ele não tem essa escolha", afirma Lídia.
Os pais não precisam impor a que horas o filho deve dormir. Mas devem exigir garantias de que o filho não perca os compromissos que assumiu para a manhã seguinte. Se ele enrola e se recusa a levantar pela manhã, a psicoterapeuta afirma: "ele tem que acordar, nem que você precise fazer uma 'operação resgate' para tirá-lo da cama. Esse trato não pode ser transgredido".
É importante que o adolescente arque com as consequências de seus atos. E, em geral, os pais tentam evitar que isso aconteça, afirma Lídia. "Se ele corre o risco de repetir de ano, eles o transferem para uma escola mais fácil. Mas se perder o ano é o resultado de escolhas inadequadas do jovem, ele tem de receber da vida a lição de que seus atos têm conseqüências pelas quais ele mesmo terá de responder", ressalta. Se for sempre poupado, perceberá que os pais são capazes de remediar os prejuízos de suas escolhas e agirá sempre de acordo com seus desejos imediatos.

Lídia Arantangy é terapeuta familiar e professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.