segunda-feira, 21 de junho de 2010

Do meu lixo cuido eu

Danielle Milarski



Quando recebi o convite da Yara para escrever sobre a minha experiência com a compostagem, rapidamente comecei a tentar lembrar como e quando implantei a lixeira viva na garagem da minha casa. Foi no início de 2009. Um vizinho e amigo, que na época fazia parte de uma ONG, me falou sobre o assunto. Um dos idealizadores da ONG é um maluco desses incansáveis na arte de te convencer de que um novo mundo é possível. Ele é o que eu denomino Ecochato. Mas, irritantemente, ele sempre tem razão. É esse “maluco” que encabeça a bem-humorada campanha "Eu me lixo para o Aterro Sanitário" e também o movimento “Do meu lixo cuido eu”. De tanto ouvir sobre isso, um dia resolvi criar vergonha na cara e cuidar do meu também.
É tão cômodo enchermos sacolas e sacolas de lixo e dispensá-las lá fora, longe dos nossos olhos, como se não fossem problema nosso. Para onde serão levadas e o que será feito com elas já não nos interessa nem nos tira o sono. Mas de repente isso realmente passou a me incomodar. Comecei a me sentir responsável pelos resíduos gerados em minha casa.
O lixo mais fácil de nos livrarmos é, sem dúvida, o reciclável. Basta lavá-lo, secá-lo e separá-lo. O que não serve de sucata para as crianças levarem à escola, certamente farão a alegria dos catadores ou serão levados pelos caminhões da Prefeitura. Este problema já estava resolvido. Há anos. Já era hora de dar um passo maior.
Em janeiro do ano passado, resolvi, então, reciclar o meu lixo de cozinha. Entrei em contato com o pessoal da ONG e comprei a minha lixeira viva. Fiquei muito entusiasmada com a aquisição, apesar de, confesso, ficar um pouco apreensiva com um possível mau-cheiro. Não temos um grande quintal em casa, então instalei a lixeira na garagem, em cima do relógio do gás, bem em frente à janela da cozinha. Se o cheiro fosse forte, teríamos problemas.  O rapaz da ONG a trouxe em minha casa, forneceu as instruções e imediatamente comecei a minha experiência. O kit vem com três caixas pretas, uma sobre a outra - no início são necessárias apenas duas. A de cima vem com um pouco de húmus e minhocas. A de baixo servirá de depósito do chorume – o líquido que sai da decomposição do lixo.
A primeira mudança foi explicar para todos de casa que o baldinho da pia da cozinha passaria a ser o lixo para a composteira. Nada de jogar nele restos de comida cozida, pão e frutas muito ácidas, como a laranja. O sal e a acidez matam as minhocas. É claro que levamos algum tempo para nos adaptar. Por várias vezes tirei restos de pizza ou casca de limão do baldinho. Quando recebemos parentes ou amigos em casa, certamente alguém insiste para nos ajudar com a louça. Já sei que em algum momento terei que avisar que minhas minhocas não comem carne ou massa. Todo mundo ri e alguém sai correndo para consertar o engano.
Mas é compensador cuidar bem das minhocas. Elas retribuem com muita generosidade! Colocamos na composteira cascas de ovo, pó de café, saquinhos de chá, guardanapos e jornal. Quando enchemos uma caixa, é preciso deixá-la fechada por 60 ou 70 dias. É quando começamos a usar a terceira caixa. Depois, temos um húmus riquíssimo, que faz milagres na horta do condomínio e em nossas plantinhas. Não é raro acontecer de, depois de algumas semanas do húmus ser misturado à terra na horta, brotarem pés de abóbora, espinafre ou camomila. Obras da natureza. E quanto ao chorume, ele é um fertilizante natural. Excelente para manter as plantas felizes, cheias de flores.    
Tenho consciência de que há muito a ser feito ainda. Preciso pensar no meu lixo do banheiro e também nos restos de comida. Já sei, por exemplo, que duas galinhas consomem restos de comida de uma família de quatro pessoas e ainda rendem ovos orgânicos. Só que não tenho onde por galinhas em minha casa! Mas sei que dei um grande passo. Contabilizo agora quantas sacolinhas plásticas de lixo de cozinha deixamos de enviar para a Caximba nestes 16 meses de composteira em casa. Algo em torno de 960. Sinto orgulho desse número e de ter, como diz meu marido, a minha própria caximbinha.



Danielle Milarski,
mãe da Sofia, do 1º ano (Turma do Olimpo)
 e do Andre, do Maternal I